quinta-feira, 31 de maio de 2012

A arena do corpo, poema de Memória dos Porcos







Às vezes brigo
e fico sem falar comigo.
Viro-me as costas,
durmo numa beirada de cama,
passo dias de mal de mim.
Quero todas as atenções.
Se chego tarde em casa e não estou
quero saber por onde andou meu coração.

De muito tentar me reconciliar,
de me pedir perdão,
e ato contínuo me estender a mão,
percebo que só farei as pazes
quando por fim os dois espíritos
que em mim não se conformam
habitarem o corpo morto
que é uma arena que não abriga dissensão
nem toma partido
de dois que nada mais são.



(imagem: wikimedia commons)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Em meu ofício ou arte taciturna, Dylan Thomas





Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma

Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.



terça-feira, 29 de maio de 2012

O tempo na lapela, poema de Memória dos Porcos






Certa vez um pedaço de tempo
feito floco de neve
– fiapo de algodão doce
que se desfaz à lambida do toque –
caiu no meu casaco e não se dissolveu.
Permaneci com o tempo na lapela.
Me dei conta de que o pedaço de tempo
– corrosivo e nada friável –
que carregava na lapela
em vez de desaparecer
insistia em crescer
até me tomar o corpo todo
como o reconhecimento do erro
que é uma febre que não cede
ou a lembrança incômoda,
cão que nos segue
e ameaça nos morder a memória.



(imagem: anne liori)